A mesa que abriga tecidos, linhas, aviamentos e outros materiais para a confecção dos produtos do Projeto Castelo de Bonecas, na Penitenciária Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa, na Paraíba, parece obter novo formato. A conversa com algumas artesãs ganha ritmo e os olhares desconfiados do momento da nossa chegada abrem espaço para a alegria promovida pela arte da escutatória.

Vânia costura o tecido e faz planos para quando ganhar a liberdade
Terminado o bate-papo com Lílian, Selena aponta para um cantinho ao fundo da sala. Nossa visão é direcionada e fixa numa figura um tanto encolhida, com o rosto encoberto pela máquina de costura. É Vânia Maria da Silva, de 53 anos. O raio de sol que penetra a sala, a impede de permanecer invisível aos nossos olhos.
Apesar da timidez, Vânia aceita contar um pouco da sua história, e é a voz dela que iremos ‘ouvir’ nessa terceira reportagem da série ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma pena justa’.
Talento multiplicado, esperança renovada
Vânia Maria está incluída no projeto há oito anos. Boneca nas mãos, cabeça e voz baixas, a costureira transmite certa tristeza. Olhar impreciso, parece tentar dizer o que as palavras não traduzem. Expressa um sentimento indefinido, leva a crer ser algo mais aprisionador do que uma grade: a dor da injustiça.

“É muito difícil estar presa. Às vezes a pessoa paga até por uma coisa que não fez, mas tem que pagar. Ninguém acredita, a gente está falando a verdade, mas ninguém acredita”, desabafa, sem receber de volta um questionário perturbador que a mantivesse nas lembranças do passado certamente sofrido.
A incerteza do que a espera lá fora é, talvez, o que mais aflige. “Acho que vai ser um pouco difícil, porque a pessoa quando é presa e sai daqui, tudo se torna mais complicado”, completa, acrescentando a preocupação com os preconceitos dos quais pode vir a ser vítima.
As expressões físicas que tornam evidente a inquietação da costureira ganham novo contorno quando introduzimos ao diálogo os sonhos para o futuro, a partir da oportunidade ofertada com a experiência do Castelo de Bonecas. “Eu me sinto muito orgulhosa do que eu faço, do que as minhas colegas fazem. A gente costura cada ponto com muita responsabilidade. E isso muda tudo, porque antes eu só vivia chorando, aperreada, depois que vim trabalhar aqui, tudo mudou na minha vida”, narra.
O vislumbre do futuro faz Vânia erguer a cabeça e deixar transparecer o brilho no olhar, até então encoberto por sua silhueta acabrunhada. O tom da voz muda e dá sentido ao verbo esperançar. “Tem quem acredite no que a gente pode ser. Estou organizando tudo na minha vida. Quando eu sair, vou trabalhar para mim mesma. Meu sonho é fazer minhas peças, vender, passar meu conhecimento para mais alguém que queira esse trabalho”, diz esperançando.
Um projeto, muitas vidas transformadas
Passar os conhecimentos adquiridos para outras pessoas faz parte do projeto de vida de Vânia Maria. Um projeto é um plano ou conjunto de ações organizadas com começo, meio e fim definidos, criado para alcançar um objetivo específico. É o que diz o dicionário da língua portuguesa.
O Castelo de Bonecas pega esse significado abstrato e o torna concreto para atingir um intuito: fomentar as práticas ressocializadoras, com o abraço do Plano Pena Justa, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e o acolhimento do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB).

Duas mulheres brancas, loiras, vestidas com camiseta preta da polícia, segurando uma boneca cada uma e bonecas ao fundo em algumas prateleiras
Tailma Teixeira (E) e Tatiana Pimentel(D) acreditam no projeto de ressocialização
Um estímulo iniciado em 2012 com apenas uma mulher. Dotada da vocação para a costura, ela percebeu, à época, que precisava preencher o tempo ocioso na unidade prisional. Com a ideia na cabeça, recebeu então a missão de capacitar um grupo de mulheres, ensinar suas aptidões e transformá-las em artesãs, para dar início às atividades.
“A partir daí, foi aberto um espaço na unidade que começou a receber auxílio do Tribunal de Justiça da Paraíba, da Vara de Execução Penal, com a juíza Andréa Arcoverde, e começamos a contar com esses recursos para fomentar o projeto. Na época, eu não era diretora, trabalhava aqui no administrativo, mas me recordo da primeira exposição que foi feita. O projeto foi ganhando corpo, crescendo e sendo reconhecido”, contou a diretora da penitenciária, Tatiana Pimentel.
O número de mulheres interessadas pelo projeto aumentou com o passar do tempo. A arte foi aperfeiçoada e ganhou repercussão. Os convites para exposições vieram e as vendas trouxeram recursos. O dinheiro passou a ser aplicado em reinvestimentos e na vida financeira de cada uma das artesãs.

Esse é um processo acompanhado diretamente por Tailma Teixeira, coordenadora do Castelo de Bonecas. “A gente acompanha o trabalho das meninas, que são oito horas diárias. Intermediamos as vendas, administramos o Instagram, também somos responsáveis pelo rateio do pagamento delas, que é feito mensalmente. Nosso papel é estar próximo delas para que a gente viabilize as vendas e o crescimento do projeto”, detalha.
Benefícios que vão além do dinheiro e refletem na sociedade
O dinheiro não é o único resultado do Castelo de Bonecas para as artesãs. “Elas conseguem ocupar o tempo ocioso, ter saúde mental, e se reintegrar com outras mulheres. O projeto ajuda nesse convívio, na disciplina e contribui para se portarem melhor. Essas ações de ressocialização ajudam de todas as formas”, elenca Tatiana Pimentel.
Um conjunto comportamental que se reflete na sociedade. O secretário de Estado da Administração Penitenciária da Paraíba (Seap-PB), Tércio Chaves, argumenta que a educação, qualificação profissional e o trabalho são reconhecidos como instrumentos fundamentais para reduzir os fatores associados à reincidência criminal.

Homem branco, vestido de com camisa branca, paletó azul escuro e gravata azul claro
Tércio Chaves – Sec. da Seap-PB
“Experiências desenvolvidas em diferentes unidades prisionais, em parceria com instituições públicas e privadas, demonstram resultados bastante positivos. Embora esses indicadores possam variar conforme a realidade de cada unidade e a continuidade das ações desenvolvidas, eles evidenciam que investir em ressocialização é investir em segurança pública. Quando uma pessoa deixa o sistema prisional com maior escolaridade, uma profissão e perspectivas concretas de inserção social, aumentam significativamente suas possibilidades de construir uma nova trajetória de vida”, aponta.
Para o secretário, os resultados do projeto mostram que a ressocialização vai além do cumprimento da pena e pode abrir caminhos concretos para uma nova vida. “Ao acompanhar essas histórias de transformação, constatamos que cada oportunidade criada dentro do sistema prisional pode representar um novo começo. Ver uma egressa inserida no mercado de trabalho, exercendo sua cidadania, sustentando sua família e reconstruindo sua história, demonstra que a ressocialização produz resultados concretos e duradouros”, expressa.

Aumentar as possibilidades de construir um novo percurso passa também pela sensibilização no olhar da sociedade. Visão a ser modificada antes mesmo das mulheres privadas de liberdade retornarem ao convívio social fora da Júlia Maranhão. Esse é o desejo da diretora Tatiana Pimentel.
E se o objetivo final é a ressocialização, é importante definir o termo pelo olhar de quem está reaprendendo para vivenciar essa reintegração social. “Ainda tenho uns anos para ficar aqui. Enquanto isso, pretendo ensinar e aprender. Enquanto eu tiver aqui e tiver oportunidade, eu vou ensinar todas”, finaliza Vânia Maria.
Na próxima reportagem da série ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma Pena Justa’ vamos conhecer uma cooperativa estruturada para acolher mulheres egressas desse modelo de ressocialização.
Confira as reportagens da série:
Castelo de Bonecas e o poder da transformação de uma pena justa
Castelo de Bonecas: onde a liberdade começa a ser costurada com uma pena justa
Por Nice Almeida
Fotos: Ednaldo Araújo




