Carlos Fidelis Ponte
Como explicar que uma economia apresente mais emprego, crescimento da renda e outros indicadores favoráveis e, ao mesmo tempo, milhões de pessoas estejam convencidas de que sua situação piorou? E como compreender que essa percepção tenha adquirido tamanha força eleitoral? Talvez seja impossível entender o crescimento de Flávio Bolsonaro sem aproximar dois fenômenos que costumamos analisar separadamente: a distância entre a melhora dos indicadores econômicos e a experiência cotidiana de parte da população; e a transformação das redes, dos algoritmos e do celular em instrumentos de persuasão política.
Em artigo anterior, “O que não estamos vendo? Algoritmos, dinheiro e a eleição antes da urna”, propus um caminho: seguir o algoritmo, seguir a rede e seguir o dinheiro. Continuo achando necessário. Mas a eleição acrescenta uma exigência: seguir também a experiência concreta do eleitor. Redes e algoritmos não inventam do nada inseguranças, frustrações e ressentimentos. Encontram pessoas com salários, dívidas, crenças, medos e expectativas. Operam sobre essa experiência, selecionando o que vemos, o que se repete e as interpretações oferecidas sobre suas causas e responsáveis. É assim que participam da construção social da realidade.
O primeiro cuidado, portanto, é não confundir percepção com ignorância. O Brasil chegou à eleição com desemprego em níveis historicamente baixos, crescimento da renda e melhora de indicadores importantes. Mas também com famílias endividadas, juros elevados e despesas com alimentação, aluguel, serviços e prestações pressionando o orçamento. Uma pessoa pode estar empregada, receber mais e ainda assim terminar o mês com a sensação de que sua vida piorou. Uma coisa é a economia registrada pelo emprego, renda e PIB; outra é aquela vivida no supermercado, na fatura do cartão e no limite da conta. Como dizia Maria da Conceição Tavares, o povo não come PIB.
Seria confortável concluir que essas pessoas simplesmente não perceberam os avanços. Seria também um erro. O eleitor não precisa estar enganado sobre sua experiência para ser persuadido sobre suas causas. A dívida pode ser real, o alimento pode estar caro e a insegurança pode existir. A disputa começa quando diferentes forças procuram explicar por que a vida está assim, quem é responsável e o que deve ser feito. A questão passa a ser: quem conseguiu atribuir significado mais convincente àquilo que as pessoas efetivamente estavam vivendo?
Ao analisar o primeiro turno, Eliane Brum introduz outra dimensão desse problema. Para ela, parte da esquerda continua falando a um Brasil que mudou: gerações alcançadas pela expansão universitária e pela ascensão social dos primeiros governos Lula já não se reconhecem necessariamente na identidade da pobreza nem nas antigas formas de mobilização coletiva. Ganharam força aspirações individuais de enriquecimento, empreendedorismo e ascensão. Brum acrescenta uma observação decisiva: “a vida da maioria não está boa”. Não basta saber se os indicadores melhoraram; é preciso compreender o que as pessoas esperavam da vida, como avaliam sua trajetória e que futuro conseguem imaginar.
A sensação de melhora ou piora não nasce apenas da comparação entre presente e passado, mas também da distância entre a vida que temos e a vida que imaginávamos ter. Uma geração pode viver melhor que a anterior e ainda assim experimentar frustração se suas expectativas cresceram mais que suas possibilidades. As redes participam dessa equação. O celular não entrega apenas política: entrega consumo, viagens, casas, carros, corpos, carreiras e estilos de vida. O mesmo ambiente digital que distribui interpretações sobre o mal-estar participa da formação das expectativas contra as quais medimos nossa própria vida.
Algoritmos aprendem com essas aspirações, frustrações e inseguranças e participam da seleção das narrativas capazes de interpretá-las politicamente. Durante décadas, a propaganda eleitoral foi predominantemente de massa. As redes e o celular mudaram essa arquitetura.
Dois vizinhos com renda semelhante podem ser alcançados por campanhas praticamente diferentes. Um recebe vídeos sobre criminalidade; outro, corrupção; um terceiro, religião; outro, impostos ou alimentos. As plataformas aprendem quais conteúdos retêm nossa atenção. A mesma campanha pode assumir formas diferentes para diferentes eleitores, e a segmentação deliberada pode ser potencializada pela seleção menos visível dos sistemas de recomendação.
Uma campanha pode publicar dezenas de vídeos sem saber antecipadamente qual funcionará. A rede testa, as pessoas reagem, alguns desaparecem e outros explodem. Algoritmos ampliam o que retém atenção, influenciadores reproduzem, surgem cortes e memes, e o WhatsApp leva a mensagem a grupos privados. É quase uma seleção darwiniana da propaganda: sobrevivem e se multiplicam as mensagens capazes de produzir mais reação. A inteligência artificial potencializa esse mecanismo ao permitir produzir, testar e adaptar inúmeras versões de uma mensagem. Talvez seu maior impacto eleitoral não sejam os deepfakes, mas a industrialização da persuasão política — inclusive por meio de meias verdades, interpretações enganosas ou mentiras e, talvez de forma ainda mais eficaz, pela capacidade de oferecer explicações simples para problemas complexos e apontar culpados.
Nesse ambiente, a campanha de Flávio Bolsonaro merece investigação. Existe uma infraestrutura partidária documentada de distribuição: a plataforma Direita Já, vinculada ao PL, organizou conteúdos e influenciadores, e reportagem do UOL identificou pelo menos 900 grupos de WhatsApp associados a essa estrutura. Mais importante que o número é o efeito multiplicador: uma mensagem pode sair de uma organização política e chegar ao eleitor pelo irmão, pelo pastor, pelo colega ou pelo vizinho. A propaganda deixa de chegar como propaganda e passa a circular revestida pela confiança entre pessoas.
Há também investigação eleitoral sobre o uso coordenado de collabs no Instagram, capaz de fazer a mesma publicação circular por diferentes perfis e públicos. Permanecem questões sobre robôs, automação, “fazendas de celulares”, disparos em massa, financiamento e impulsionamento. Saber quais desses mecanismos foram utilizados, em que escala, financiados por quem e com que relação com estruturas de campanha é indispensável para compreender a disputa eleitoral no ambiente digital.
Pode haver, porém, algo ainda mais poderoso funcionando diante de nós e, em grande medida, dentro das regras: a possibilidade de transformar cada telefone em um terminal individual de persuasão e construção da realidade. É aí que economia, infraestrutura digital e comunicação se encontram. Um trabalhador pode ganhar mais e continuar endividado. Se recebe diariamente conteúdos sobre alimentos, juros e impostos, sua experiência encontra uma narrativa que a organiza. Outro eleitor recebe segurança; outro, religião; outro, corrupção. A persuasão mais eficiente não precisa inventar a realidade: basta selecionar partes dela, repeti-las, hierarquizá-las e lhes atribuir significado.
O problema se agrava quando essa percepção é confrontada com arrogância, deboche ou desqualificação por setores da esquerda. Dizer ao outro que ele não compreendeu a própria realidade pode reforçar suas convicções. Um governo apresenta os dados do emprego enquanto o eleitor olha a própria fatura; mostra o crescimento da renda enquanto o celular mostra o supermercado; apresenta séries históricas enquanto a rede entrega um rosto, uma indignação, um vídeo de trinta segundos. Quando existe distância entre indicador e experiência, abre-se um enorme território para a disputa política.
A disputa já não ocorre apenas sobre o que fazer diante da realidade, mas sobre qual realidade cada um percebe existir. Sistemas que conhecem medos e indignações não precisam fabricar ressentimentos: podem identificá-los, reforçá-los e direcioná-los. No artigo anterior, perguntei quantos eleitores conheciam as informações sobre Daniel Vorcaro e Dark Horse e quantos recebiam repetidamente conteúdos sobre STF, criminalidade, costumes ou acusações contra adversários. Continuamos sem saber. As plataformas sabem muito mais. É preciso investigar o que deixa de chegar, o que chega com menor intensidade e como informações capazes de abalar convicções podem ser soterradas ou enquadradas de modo a reduzir seu impacto.
Mesmo quando chegam, essas informações podem ser relativizadas diante de identidades, pertencimentos, medos, raivas e ressentimentos mais fortes. Aquilo que condenamos no adversário pode ser tolerado em quem percebemos como expressão de nossas próprias indignações.
A pergunta, portanto, não deve ser simplesmente se as redes fizeram Flávio crescer, mas que papel teve um ecossistema digital capilarizado na identificação de insatisfações reais, na seleção das mais mobilizadoras, na oferta de interpretações políticas e na transformação de percepções em voto. Responder exige cruzar voto com renda, endividamento, religião, idade, escolaridade e território; reconstruir redes de influenciadores; examinar segmentação, automação, circulação pelo WhatsApp e exposição diferencial a informações; e exigir maior transparência das plataformas.
Exige também examinar criticamente uma perspectiva presente na campanha de Lula e em setores da militância de esquerda: a suposição de que apresentar bons indicadores, desmentir informações falsas ou apontar contradições do adversário seria suficiente para alterar percepções e produzir convencimento. Se experiência, expectativas, identidades e emoções participam da maneira como percebemos a realidade, corrigir informações não basta: é preciso compreender o mal-estar e as interpretações que diferentes grupos atribuem à própria experiência. A eleição de Wilson Witzel, em 2018, já mostrava a importância adquirida pelas estratégias digitais na rápida projeção de uma candidatura até então pouco conhecida. O desafio não é substituir a rua pela rede, mas compreender que a rua agora também passa pelo celular.
É preciso seguir também o dinheiro. Algoritmos não têm projeto político, não fazem negócios nem financiam influência. Pessoas e organizações fazem. Produção de conteúdo, impulsionamento, influenciadores e infraestrutura custam dinheiro. Saber quem paga, quem organiza e quem se beneficia continua sendo indispensável.
Há, finalmente, uma questão democrática. Na propaganda tradicional, sabíamos aproximadamente o que o candidato dizia e quem poderia ouvir. Na comunicação hipersegmentada, uma candidatura pode desenvolver inúmeras mensagens simultâneas: uma para cada medo, uma narrativa para cada indignação, uma linguagem para cada comunidade. Muitas nem sequer são percebidas como propaganda.
No artigo anterior, perguntei: o que não estamos vendo? Talvez agora possamos formular melhor a resposta. Precisamos seguir o algoritmo, que seleciona; a rede, que distribui; o dinheiro, que amplia; e a experiência, sobre a qual tudo isso opera. E compreender que essa experiência não é julgada apenas pelo que vivemos, mas também pelo que esperávamos viver.
Mas é preciso ampliar o campo de visão. Corporações, empresas especializadas e Estados dispõem de tecnologias, dados e metodologias capazes de conhecer públicos, segmentá-los e tentar influenciar comportamentos e opiniões. O escândalo Cambridge Analytica, associado às disputas políticas da década passada e ao debate sobre o Brexit, tornou visíveis os problemas do uso político de dados pessoais, perfilamento e microsegmentação. O que então parecia tecnologicamente avançado pode hoje ser visto como embrionário diante da escala dos dados disponíveis, da sofisticação dos sistemas de recomendação e das possibilidades abertas pela inteligência artificial. A questão ultrapassa uma eleição ou um país: diz respeito à capacidade de conhecer públicos, alcançá-los seletivamente e disputar, nem sempre de maneira transparente, a formação da opinião pública.
Orwell e Matrix oferecem duas metáforas complementares. Em 1984, o Grande Irmão observa e controla; em Matrix, uma realidade é experimentada como verdadeira sem que seus mecanismos de construção sejam visíveis. Hoje, sistemas aprendem conosco e distribuem conteúdos diferentes para públicos diferentes. O Grande Irmão via todos; os sistemas contemporâneos podem tentar conhecer cada um. E Matrix nos devolve à pergunta central: quanto da realidade que percebemos decorre do que efetivamente acontece e quanto decorre da seleção, hierarquização e interpretação daquilo que chega até nós?
A economia pode melhorar e o mal-estar permanecer. O mal-estar pode ser real sem que sua interpretação política seja inevitável. Entre aquilo que vivemos, aquilo que esperávamos viver e a explicação que damos à distância entre os dois existe um campo de disputa. Compreender como o voto é construído tornou-se, portanto, uma questão relevante para a própria democracia. A formação do voto começa muito antes do momento de depositá-lo na urna. Começa também na disputa pela interpretação da realidade — e essa disputa acontece, cada vez mais, na pequena tela que carregamos no bolso.
Reprodução: Cebes- Carlos Fidelis Ponte



