Frei Betto
Em abril de 2017, no Clube Hebraica, no Rio, Jair Bolsonaro, ao se referir a uma visita a um quilombo, contou: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriador ele serve mais.” Bolsonaro usou uma unidade de peso associada a animais para se referir a quilombolas. A fala provocou denúncia da então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que considerou desrespeitoso o uso de “arrobas” para pessoas negras por tratá-las de maneira comparável a animais.
Em julho de 2018, já candidato à Presidência, Bolsonaro foi novamente questionado sobre racismo e ao ser perguntado sobre uma eventual dívida histórica do Brasil com a população negra, respondeu: “Não escravizei ninguém”. Na mesma entrevista, acrescentou: “Foram os próprios negros que entregavam os escravos”.
Também durante a campanha, defendeu o fim das reservas indígenas e quilombolas: “Se eu chegar lá, não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”
O racismo e a intolerância religiosa da família Bolsonaro e de seus aliados voltam a se manifestar na proposta de um deputado do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de cassar o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.
Nossa Senhora Aparecida, que andava entretida em explicar a um grupo de devotos que não existe “Aparecida do Norte”, pois o município paulista fica no Sul e desde que se emancipou de Guaratinguetá, em 1928, é denominado apenas Aparecida, ficou preocupada com a notícia da ameaça de cassação. E, convenhamos, até uma santa pode ficar indignada quando descobre que seu cargo está sendo discutido no Congresso.
“Mas desde quando preciso de concurso público para ser padroeira?”, teria perguntado a Virgem ao ajeitar o manto azul. “Não lembro de ter feito campanha eleitoral, distribuído santinhos ou prometido emendas parlamentares.”
A história, aliás, não começou agora. Em 16 de julho de 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil, a pedido dos bispos brasileiros. A solenidade pública ocorreu em 1931, no Rio de Janeiro, diante de autoridades e de uma multidão de fiéis. Aparecida, portanto, estranha a notícia de que alguns políticos pretendem retirá-la do posto.
“Que fiz eu de errado?”, pergunta. Talvez seja o imperdoável pecado de ser negra. Afinal, a pequena imagem encontrada em 1717 nas águas do rio Paraíba é negra e há quem ainda se incomode com a presença dos negros ocupando lugares de honra.
Talvez o problema seja ela não pertencer a partido algum. Não é de esquerda nem de direita. Não se filiou ao PT, ao PL, ao PSOL, ao centrão ou a qualquer outra legenda. Nunca pediu fundo partidário. Nunca disputou eleição. E, sobretudo, jamais prometeu aquilo que político adora assegurar se for eleito: o milagre de resolver todos os problemas do Brasil em quatro anos.
Outro detalhe desconcertante é Aparecida ter a preferência de pobres. Isso complica sua permanência no cargo. Segundo a própria tradição católica, sua devoção tornou-se um elo de união entre diferentes grupos do povo brasileiro e é associada à solidariedade, à fraternidade e à atenção aos mais pobres.
Ora, convenhamos, uma santa que insiste em defender os excluídos pode causar certo desconforto em ambientes onde a população carente costuma ser levada em conta apenas em época eleitoral. Aparecida talvez também esteja intrigada com a ideia de que políticos possam cassar aquilo que não lhes pertence. “Fui encontrada por pescadores, venerada pelo povo, proclamada Padroeira pela Igreja e reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro. E agora um político imagina que pode me demitir?”
Em 1980, a Lei nº 6.802 decretou o dia 12 de outubro feriado nacional dedicado à devoção a Nossa Senhora Aparecida e reconheceu oficialmente sua condição de padroeira do Brasil. Portanto, se algum parlamentar quiser realmente votar sua cassação, sugiro que providencie antes uma CPI.
Primeiro, ouviriam a acusada: “A senhora confirma que é Padroeira do Brasil?” “Confirmo”. “Tem consciência de que esse título poderá ser retirado?” “Tenho”. “E pretende recorrer?” “Não. Prefiro deixar que o povo decida no coração”. Silêncio no plenário. Então alguém perguntaria: “A senhora tem alguma consideração final?” E Aparecida, talvez sorrindo debaixo do manto azul, responderia: “Tenho. Quando terminarem de discutir meu título, sugiro que comecem a discutir a fome, a pobreza, o feminicídio, o racismo, a desigualdade e o abandono dos que não têm voz?” Silêncio no plenário.
Talvez algum deputado cochichasse: “Essa santa está ficando política demais.” Ao que outro reagiria: “Não. Nós é que esquecemos que política deveria servir ao povo.”
Aparecida, então, voltaria tranquilamente para seu altar. Afinal, padroeira não é cargo eletivo, não recebe salário e não depende de reeleição. E, se algum dia perder o título oficial, continuará sendo aquilo que os pescadores encontraram há mais de trezentos anos no rio Paraíba: uma pequena imagem negra que, desde então, o povo brasileiro insiste em chamar de Mãe.
Frei Betto é escritor, autor da tetratologia sobre Jesus editada pela Vozes (Jesus Militante, Jesus Rebelde, Jesus Revolucionário e Jesus Amoroso), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org
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