Cláudio Furtado *
Em 1961, um homem de óculos, terno e ar de funcionário de repartição sentou-se diante de um tribunal em Jerusalém. Era Adolf Eichmann, o burocrata que organizou os trens para os campos de extermínio nazistas. A filósofa Hannah Arendt foi cobrir o julgamento para a revista The New Yorker, esperando encontrar um monstro. Encontrou um sujeito medíocre, que falava por clichês e repetia que apenas cumpria ordens.
Dessa estranheza nasceu a expressão “banalidade do mal”. Ela costuma ser mal-entendida. Arendt não dizia que o mal é comum nem que todo mundo é um carrasco em potencial. Dizia que o mal pode ser praticado sem ódio, sem demônio e sem grandes motivações, por alguém que simplesmente deixou de pensar. Para ela, o perigo estava na ausência de reflexão: a pessoa que não para um segundo para perguntar “o que é mesmo que eu estou fazendo?”.
A ciência se interessou pelo assunto quase ao mesmo tempo. No mesmo ano do julgamento, o psicólogo Stanley Milgram, da Universidade de Yale, montou um experimento famoso. Voluntários comuns eram instruídos por um pesquisador de jaleco a aplicar choques elétricos, na verdade falsos, em outra pessoa que errava perguntas. A cada erro, a voltagem subia. Muita gente suava, tremia, protestava, mas continuava. Na versão original, cerca de dois terços chegaram ao nível máximo de 450 volts.
Gente normal, com autoridade por perto, fazendo o que jamais faria sozinha. Parecia a confirmação de Arendt em laboratório.
Quem cresceu ouvindo Pink Floyd reconhece essa engrenagem. No filme The Wall, de Alan Parker, feito a partir do álbum de 1979, há uma cena em que martelos marcham em formação, como soldados, esmagando tudo pelo caminho. Ninguém ali tem rosto, e ninguém precisa ter ódio. O muro que dá título à obra também não nasce de uma vez: sobe tijolo por tijolo, e cada tijolo, sozinho, parece inofensivo. A lógica é a mesma dos choques de Milgram, em que ninguém se sente dono do muro inteiro.
Só que a história ficou mais interessante depois. Pesquisadores que revisitaram os experimentos, como Alex Haslam e Stephen Reicher, mostraram que as pessoas não obedecem de maneira cega. Elas se identificam com uma causa (“é pela ciência”, “é pelo bem maior”) e passam a agir como seguidoras engajadas. Quando a ordem soava como puro mando, a obediência caía. Já a historiadora Bettina Stangneth, ao estudar documentos e gravações de Eichmann, sustentou que ele era muito mais ideologizado e consciente do que Arendt percebeu. Ele teria encenado a figura do burocrata inofensivo diante do tribunal.
Isso enfraquece a ideia? Eu diria que a refina. O mal raramente se apresenta como mal. Chega com nome de dever, de eficiência, de “a regra é essa”, de “eu só repasso o que me mandaram”. Chega dividido em tarefas tão pequenas que ninguém se sente dono do resultado inteiro. Hoje ele também pode chegar como curtida, repasse e comentário de grupo, em que cada um acha que é apenas mais um.
E é aí que entram os que, ainda hoje, defendem atos totalitários: a tortura “necessária”, a censura “para o bem de todos”, a perseguição de quem pensa diferente “porque ameaça a ordem”. Nem todos são iguais, e vale distinguir. Há os que defendem por convicção, como talvez fosse o caso do próprio Eichmann, e esses sabem muito bem o que estão fazendo. Mas há também os que repetem a defesa sem nunca ter parado para examiná-la.
A nossa história tem material de sobra para reconhecer esse segundo grupo. Durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, o país conviveu com prisões ilegais, tortura e desaparecimentos, fatos documentados pela Comissão Nacional da Verdade. Mas o que mais impressiona, olhando em perspectiva, é o tamanho da engrenagem que fazia aquilo funcionar sem que ninguém precisasse ser um monstro. Havia quem preenchesse o formulário, quem assinasse o laudo, quem emprestasse o carro, quem fechasse a porta da sala ao lado. E havia a vizinhança inteira, que ouvia os boatos e concluía: “se levaram, é porque devia alguma coisa”. Anos depois, as frases mudaram um pouco, mas continuam com o mesmo sabor de álibi: “eu só cumpria ordens”, “eu não sabia”, “na minha rua nunca aconteceu nada”.
Foi a isso que Arendt chamou de ausência de pensamento. Não é ignorância, porque quase sempre havia indícios. É a decisão discreta de não juntar as peças, porque juntá-las obrigaria a tomar posição.
E é por isso que a banalidade do mal não é só assunto de livro de história. Quem hoje relativiza aquele período, dizendo que “não foi bem assim” ou que “foi o preço da ordem”, costuma repetir a mesma frase pronta, sem imaginar o rosto de quem estava do outro lado da porta. Nem sempre é maldade. Muitas vezes é comodidade, pertencimento e a preguiça de pensar, que são justamente os ingredientes de que o totalitarismo precisa.
Nenhuma voltagem sobe de uma vez só. Sobe de 15 em 15 volts, e cada degrau parece pequeno demais para merecer uma pergunta. Nenhum muro cai pronto do céu. Quem aplaude o degrau de hoje, ou assenta o tijolo de hoje, ajuda a construir a escada inteira. É no degrau pequeno que o pensamento precisa estar acordado. Estamos no momento hoje no Brasil que temos que escolher entre ir por caminho contra a democracia ou defende-la. Vivemos um período eleitoral que estamos sendo chamados a olhar para Historia e não banalizarmos o mal. Devemos escolher em seguirmos pela democracia, pela liberdade de expressão, liberdade religiosa. Não vamos colocar tijolos para construir o muro da banalidade. Viva aqueles que defendem a ciencia e a democracia.
* Professor da UFPB/ Sec. Ciência e Tecnologia do Governo da Paraíba
Coluna Poeira Estelar publicada em A União




